Fazendo uma crítica ao modelo atual e ao corte de recursos para as escolas,  Mangueira apresenta o carnaval da liberdade

Enredo da escola é uma crítica ao modelo atual

Com dinheiro ou seu dinheiro, eu brinco. Esse é o enredo que a Mangueira vai levar para a Marquês de Sapucaí este ano. Além de uma crítica ao corte de recursos repassados às escolas de samba pela Prefeitura do Rio, a Verde e Rosa vai trazer de volta um carnaval popular do tempo em que o apoio financeiro não era condição principal para a alegria do folião – nem na rua, nem nos desfiles, desde o seu início, nos anos 30 na Praça Onze, e depois na Avenida Presidente Vargas (no Centro), até chegar à Marquês de Sapucaí, nos anos 80.

No comando do barracão da Estação Primeira de Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira disse que a manifestação popular volta a marcar o seu espaço na festa. “O meu carnaval é um carnaval de liberdade, que aproveita este momento para dizer que o carnaval é uma festa. Acaba criticando não só o prefeito, porque o carnaval da Mangueira levanta a bandeira dos valores próprios da cidade do Rio de Janeiro, mas também critica a própria gestão das escolas de samba”, indicou.

Para o carnavalesco, que pelo terceiro ano consecutivo é responsável pelo enredo da agremiação, a estrutura atual das escolas de samba engessa a festa. “A dependência do capital acaba determinando que a escola que vai ganhar o carnaval é a que vai gastar mais dinheiro, quando deveria ser a escola que apresenta a melhor proposta. A melhor escola não é a que gasta mais, mas a que arrebata no desfile”, disse.

Vieira tem quatro anos de história trabalhando nos desfiles – antes da Mangueira, foi carnavalesco da Caprichosos de Pilares na Série A em 2015. Integrante do seleto grupo de carnavalescos formados na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele contou que sempre defendeu o carnaval como manifestação cultural genuína e foi contrário à dependência do dinheiro para fazer um bom carnaval. Para ele, o corte de recursos da prefeitura do Rio acabou levantando a discussão do modelo atual de carnaval e de sua pertinência.

“Achei que era a melhor hora para tratar do assunto. Diante de um cenário onde a crise econômica e a crise financeira assumiram papel de vedete do carnaval 2018, achei legal ter uma escola que levantasse a bandeira de que a crise econômica não é vedete de nada. A vedete do carnaval sempre deverá ser a criatividade e o luxo. Deve ser a reinvenção da festa”, pontuou.

No carnaval popular desfilado pela Mangueira, a escola abre espaço para os tradicionais blocos carnavalescos Cordão da Bola Preta, Bafo da Onça e Cacique de Ramos, responsáveis por arrastar uma multidão de foliões pelas ruas do Centro do Rio. Serão lembrados ainda os antigos banhos de mar à fantasia, uma tradição carnavalesca que se perdeu com o tempo, e a cultura das fantasias de bate-bola – também chamadas de Clóvis ou rodado –, que se assemelham à roupa de um palhaço, porém com uma máscara aterrorizante, tão comuns em bairros das zonas norte e oeste da cidade. “Essa é a memória do carnaval que a cidade tem. O enredo da Mangueira é um olhar do carnaval que todo mundo gosta. Quem viveu tem saudade e quem não viveu espera viver”, completou o carnavalesco.

Homenagem ao Cacique de Ramos

O cantor e compositor Ubirajara Félix do Nascimento, o Bira Presidente, de 81anos, dos quais 57 na presidência no bloco Cacique de Ramos, será um dos destaques da Mangueira. Bira, que integra o grupo Fundo de Quintal, recebeu com muita emoção convite e lembrou que a Verde e Rosa é madrinha do Cacique. “Eu me senti emocionado e agradecendo a Deus a estabilidade do Cacique”, destacou, completando, que até hoje o bloco se mantém com recursos próprios e chega a ser uma das resistências pela permanência dos antigos carnavais populares do Rio.

Para o Bira, a origem do carnaval carioca é o folião e “modéstia a parte”, o Cacique, um bloco criado por integrantes de três famílias do bairro de Ramos, inclusive a sua, contribuiu muito para isso.

(Com a Agência Brasil)

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