Como todo e qualquer brasileiro acho que lugar de corrupto é na cadeia. Quero e anseio que, se comprovados os crimes, Jorge Picciani, Edson Albertassi, Paulo Melo e muitos outros cumpram suas penas dentro daquilo que o rigor da lei impõe. Porem, hoje, pelo que está na Constituição federal e na estadual eles não podem ser presos e não me venham dizer que estou defendendo bandido. O que tento lhes mostrar aqui é que se alguns desses doutores endeusados pelas redes sociais e por importantes setores da imprensa decidem se lixar para a lei em casos envolvendo medalhões da política, podem fazê-lo também contra qualquer cidadão, bastando para isso que o clamor público os pressione a tal, pois o que estamos vendo são prisões feitas mais para agradar a platéia que sustentadas pela lei. 

Nos dias atuais qualquer um que ouse defender o devido processo legal é taxado de inimigo da Lava Jato pelos semideuses do Ministério Público Federal sob aplauso dos justiceiros das redes sociais, uma turma de raciocínio lento e dedos ágeis no teclado, que certamente vai esbravejar bastante por conta do que vou dizer agora: Na tarde desta terça-feira os desembargadores do Tribunal Regional Federal no Rio de Janeiro pisaram na Constituição, simplesmente porque se sentiram ofendidos com o fato de a Assembleia Legislativa não lhes ter comunicado a decisão da sessão da última sexta-feira, para que eles então pudessem emitir os alvarás de soltura. A Casa errou feio em não fazê-lo, mas ao desautorizar as prisões o fez dentro da lei. 

Certamente  muitos de vocês vão ponderar que o Artigo 53 da Constituição só diz respeito a deputados federais, estabelecendo que parlamentares federais só podem ser presos quando em flagrante de crime inafiançável. Até aí tudo bem, mas antes deste tem o Artigo 27, que confere o mesmo tratamento aos parlamentares estaduais. Então lhes peço que antes de caírem de pau em cima de mim, por favor, leiam o que diz o Artigo 27 da Constituição federal: "§ 1º Será de quatro anos o mandato dos deputados estaduais, aplicando- sê-lhes as regras desta Constituição sobre sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação às Forças Armadas."  E se ainda acharem que estou inventando moda, se atenham ao Artigo 102 da Constituição estadual: "§ 1º Os Deputados, desde a expedição do diploma, serão submetidos a julgamento perante o Tribunal de Justiça. § 2º Desde a expedição do diploma, os membros da Assembleia Legislativa não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Assembleia Legislativa, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão."

Se querem, acho que boa parte dos membros da Alerj deveria estar na cadeia, mas defendo que se querem prender que o façam direito, para que depois - por causa da barbeiragem de promotores e juízes - os corruptos, os ladrões do dinheiro público não venham virar o jogo e zombarem de uma Justiça afoita, que decide com base no que o povo quer e não com que está na lei, que é ruim, privilegia os políticos, mas é a que temos para hoje.

Por André Ceciliano

Poderia reprisar todas, as falas que tenho acompanhado pelas redes sociais mas me dedicarei aqui a esclarecer o que determinou meu voto no plenário da Alerj na última sexta-feira. Minha decisão foi pautada pelo projeto de resolução da CCJ, segundo o qual os crimes imputados aos deputados Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo, sem qualquer juízo de valor, por não serem inafiançáveis, não poderiam ter como efeito final a prisão. Uma decisão que segue estritamente o que dita a Constituição da República, à qual estamos todos submetidos.

"Numa ditadura não daria para fazer uma passeata pela democracia. Na democracia, você pode fazer uma passeata pedindo a ditadura". A colocação simples e direta do filósofo e escritor paranaense Mário Sergio Cortella diz mais do que muitos de nós conseguimos entender e seria ótimo se os aprendizes de ditadores que povoam as Forças Armadas, o Ministério Público e o Poder Judiciário parassem um pouquinho para refletir sobre o assunto. Recentemente um militar de 'bigode grosso', no alto de sua ignorância sobre Legalidade e Constitucionalidade, saiu-se com essa: "Intervenção militar constitucional!" Perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. Isso não existe na Carta Magna. Quem sobreviveu o longo e tenebroso período da ditadura sabe quão nefastos sãos os militares quando no comando de uma nação. Não estou falando em relação à censura, à proibição da livre manifestação, à tortura. A coisa é muito maior. Falo de inflação de 80% ao mês, de desabastecimento, de estradas que começam não sei onde e chegam a lugar nenhum. Falo também de corrupção, mesmo sabendo que vai aparecer um monte alegando que no tempo dos militares não havia escândalo e que ninguém ouvia falar ou lia uma linha sequer sobre roubalheira. Claro que não. Era proibido noticiar...

O corpo do jornalista Marcelo Rezende está sendo velado na Assembleia Legislativa de São Paulo e será sepultado às 17h. Marcelo morreu ontem (16), vítima de um câncer diagnosticado inicialmente no pâncreas, que tomou também o fígado de um dos mais importantes profissionais do jornalismo brasileiro. Tendo militado por mais de 40 anos, Rezende produziu centenas de matérias investigativas, nas quais denunciou o jogo sujo de autoridades, políticos e dirigentes esportivos, mas foi um "pastor" quem mais praguejou contra ele. Sim, praguejou, pois praga é o termo certo para definir o sermão de um canalha que ficou rico a custa do esforço financeiro de milhões de brasileiros que se deixam enganar pelas pregações de Valdemiro Santiago, o fundador de uma empresa multinacional da fé, a Igreja Mundial do Poder de Deus. O "apóstolo", como o enganador se apresenta em programas de televisão e em templos de sua seita, ficou irado com uma reportagem de Marcelo, que decidiu mostrar ao país como esse "ungido" ficou rico explorando a fé dos que adoram ser enganados por gente como ele em nome de Deus e resolveu "profetizar" o fim do repórter.